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O consumo de notícias continua a evoluir e compreender estas mudanças é cada vez mais importante para quem trabalha em comunicação.
A edição de 2026 do Digital News Report Portugal, criado pelo Reuters Institute forthe Study of Journalism para um conjunto de mercados, é desenvolvido em Portugal com o OberCom - Observatório da Comunicação. O estudo traça um retrato aprofundado dos hábitos de consumo noticioso dos portugueses, identificando tendências que ajudam a compreender a relação entre cidadãos, meios de comunicação e plataformas digitais.
Para aprofundar algumas das principais conclusões desta edição, convidámos Ana Pinto Martinho, investigadora do OberCom e membro da equipa responsável pelo Digital News Report Portugal 2026, a responder a algumas questões sobre os resultados do estudo e o que estes significam para o setor da comunicação.
O relatório Digital News Report de 2026 vem mostrar que estamos num momento de transição interessante, ainda com a centralidade da televisão, com o digital a ganhar cada vez mais terreno e com o uso de chatbots de IA a despontar. É dedestacar que a TV continua a ser o meio de eleição para os portugueses se informarem, com 71% a utilizá-la para aceder a notícias, o nível mais elevado de utilização entre os 48 mercados analisados. Claramente ainda não nos despedimos do ecrã grande.
Mas há novas tendências. A inteligência artificial está a entrar pela porta, quase sem dar nas vistas, estas ferramentas estão a ser usadas sobretudo para ler resumos de notícias ou perceber se uma fonte é de confiança. Ainda é algo discreto, mas começa a ser notório.
Nos jovens, a mudança é mais radical. Para quem tem entre 18 e 24 anos, seguir um criador de conteúdo ou um influenciador já é, para muitos, uma forma legítima de se manter informado. Outro dado que não passa despercebido é o facto de os portugueses estarem cada vez mais desconfiados do que leem na internet. 76% admite preocupação com notícias falsas, um número acima da média mundial.
E, por último, as redes sociais tornaram-se a principal porta de entrada para notícias online, à frente dos motores de pesquisa, como o Google, e até ao ir diretamente ao site de um jornal. O algoritmo é, cada vez mais, o novo “editor”.
Diria que a evolução mais crítica é a erosão estrutural da relação dos portugueses com o sistema noticioso, visível em três indicadores. O primeiro é a queda na confiança, a confiança geral nas notícias caiu de 66% em 2015 para 51% em 2026, o valor mais baixo da década. O segundo diria que é o declínio do interesse por notícias. O interesse elevado por notícias recuou de cerca de 70% (2015-2018) para apenas 50% em 2026. E o terceiro é a consolidação do evitar ativo de notícias. O hábito de evitar notícias de forma deliberada estabilizou num patamar elevado (37%), quase duplicando face aos 22% registados em 2017.
Diria que a principal diferença de Portugal face ao panorama internacional é a centralidade excecional da televisão. O país é o mercado onde a televisão mais pesa no acesso a notícias (71%) e onde é mais identificada como a principal fonte de informação (59%) entre todos os 48 países estudados. Enquanto outros mercados mostram uma fragmentação mais acentuada, as rotinas informativas portuguesas continuam fortemente ancoradas no meio televisivo. Além disso, Portugal mantém-se como uma exceção positiva na Europa do Sul quanto à confiança nas notícias, situando-se significativamente acima da média global, com percentagens muito mais próximas dos países do norte da Europa.
É uma questão um pouco complexa, mas diria que os diretores de comunicação podem utilizar os dados do relatório como apoio na tomada de algumas decisões mais estratégicas. Dou alguns exemplos. Segmentação geracional diferenciada, tendo por base os dados do relatório. Compreender a necessidade de adaptação de conteúdos tendo em conta as novas tendências. E por último combater a fadiga Informativa, uma vez que o elevado nível de evitamento ativo de notícias por cansaço ou impacto emocional, as marcas devem apostar em formatos de maior utilidade e menor ruído, focando-se na proximidade e usabilidade, atributos muito valorizados nos novos mediadores digitais.